Em debate sobre produção sustentável, especialistas afirmam que é possível conciliar agronegócio e a conservação dos biomas

Déborah Gouthier

Inteligência territorial: essa foi a chave do Fórum Ambiental desse sábado, dia 20, que reuniu o engenheiro agrônomo Arnaldo Carneiro, da Agroícone, e o engenheiro florestal Tasso Azevedo, do Observatório do Clima e MapBiomas, mediados por Laerte Guimarães, consultor de Meio Ambiente do Fica 2016. No Convento do Rosário, eles debateram as formas de produzir mais, melhor e de forma sustentável através de um maior conhecimento do território, que permita traçar estratégias que aliem o agronegócio à conservação.

A discussão foi aberta por Tasso Azevedo, que apresentou os números referentes à ocupação e uso da terra em todo o globo terrestre. Os dados pretendiam responder a uma pergunta básica: um planeta só, dá para todo mundo? E, segundo o especialista, dá sim! Ele relatou que 71% da Terra é composta por oceanos e que cerca de 6 bilhões de hectares formavam, originalmente, a área das florestas. Todavia, esse número foi reduzido em mais de 2 bilhões de hectares, principalmente devido à ação do homem, sendo a maior parte dessa perda depois dos anos 1950.

Ele explicou que, se consideradas as áreas produtivas no mundo todo e uma imaginada divisão igualitária desse território, cada habitante teria 6500 metros quadrados de produção agropecuária. Quando consideramos o território do Brasil, esse número quase dobra, passando a 11.500 metros quadrados por habitante. “Se a gente tem uma área disponível significativamente maior, porque a gente ainda é o país que mais desmata no mundo?”, questionou o engenheiro. A solução, segundo ele, é entender como usar o território que já temos de forma diferente e inteligente.

Quem propôs esses novos modos de usar o território foi Arnaldo Carneiro, para quem é preciso redesenhar a paisagem agrícola nacional, por meio de uma melhor gestão da agricultura e dos recursos naturais. Depois de apresentar algumas características da Amazônia e esclarecer a estreita relação que esse bioma possui com o Cerrado, ele explicou que estamos saindo do período mais complicado da ocupação do território e entrando em um ciclo virtuoso.

Foto: Léo Iran

Foto: Léo Iran

O engenheiro elencou alguns dos desafios pelos quais passamos no Brasil: ainda estamos desmatando cerca de 1 milhão de hectares por ano; as emissões de carbono; a falta de políticas sociais e de inclusão produtiva para os grupos sociais que lutam em todo o país; a falta de estratégias nas políticas de crédito rural; a desigualdade na distribuição da produção de alimentos (que impacta diretamente nas demandas da agricultura familiar); o problema na gestão dos recursos hídricos; e, até mesmo, o novo Código Florestal.

Para o engenheiro agrônomo, é preciso desenhar soluções para o agronegócio, de forma a reduzir o custo e otimizar a adequação ambiental por meio de estratégias como o zoneamento estadual, o mapeamento de oportunidades florestais e o consórcio de passivos ambientais. Sobretudo, de acordo com o engenheiro, é preciso planejar paisagens agrícolas sustentáveis. “Para salvar o Cerrado é preciso sair do achismo e procurar informações precisas. No Cerrado, é em cima da pecuária que existem as maiores oportunidades para expansão da produção de grãos, então é preciso orientar as políticas públicas nesse sentido. A guerra é uma guerra de mapas. O ambientalismo no Cerrado, que ainda é muito disperso, depende do empoderamento das informações pelos grupos sociais”, argumentou, reforçando que essa informação, esse conhecimento, já existe, mas precisa ser assimilado e utilizado de forma a conciliar produção e conservação, estratégias territoriais, sustentabilidade em escala e paisagens sustentáveis.

O consenso das discussões foi motivador. Segundo os especialistas, o Cerrado ainda não está perdido. E o nosso grande desafio é compreendê-lo, utilizando-o de maneira adequada e sustentável.