Falta de água em Goiás: vulnerabilidade natural e falta de planejamento

Catherine Moraes

Rochas sem poros, um solo fino, bacia hidrográfica arredonda e uma capacidade quase nula de armazenamento fazem com que a cidade de Goiás enfrente, há mais de 200 anos, problemas com a falta de água. A geologia, grande vilã, na falta e no excesso, marca o município por secas e enchentes, como a de 2001, que devastou a cidade. Neste ano, com a mudança da data do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) de junho para agosto, o tema se tornou mais presente nas discussões. Com o período de seca, é comum encontrar, por exemplo, cartazes nos hotéis pedindo poucos banhos e economia de água. O problema, que parecia distante, bateu na nossa porta.

Geólogo, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e diretor técnico da Secretaria Municipal de Meio Ambiente da cidade de Goiás, Pedro Alves Vieira, afirma que as dificuldades com a falta de água eram as mesmas por aqui desde a chegada dos Bandeirantes. “O antropismo, claro, acelerou o processo. Mas, se o homem tivesse feito o dever de casa, ainda assim teríamos problemas. A agropecuária tem um papel pequeno de influência, assim como a recuperação de nascentes, por exemplo, não é suficiente! Se existe algo que podemos fazer para combater essa crise hídrica, é planejamento”, completa.

Apenas na terça-feira (16), com a chuva que deu na abertura do Fica 2016, foram 45 mm de precipitação, que significam 45 litros de água por m². Na microbacia do Bacalhau, entraram mais de 1 bilhão de litros de água. Seguindo a estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU), é água suficiente para 18 mil habitantes gastarem por um dia, que é um pouco menos que a população de Goiás, estimada em 24 mil sem contar os turistas. “Olhamos para o Rio Vermelho, por exemplo, para o Bacalhau e não vemos esta água. Ela já se foi porque Goiás não tem capacidade de armazenamento. A água das chuvas deveria permanecer no solo, mas, na Cidade de Goiás, o solo é fino. Como a água não se firma, vai pelo canal do rio até chegar ao Araguaia”, explica o geólogo.

Pensando de forma estratégica

Entre as possibilidades discutidas para Goiás, esteve a perfuração de poços artesianos. Pedro Alves afirma que, mesmo que furem 10 km de poços artesianos, não haverá água porque o solo não tem capacidade para armazenar. “O Plano A da Saneago é retirar água do Bacalhau, o Plano B é do Córrego Pedro Ludovico e, agora, estamos retirando água do Rio Vermelho. A vasão do Rio Vermelho não suporta e, se isso continuar, o rio vai secar”, completa.

Em 2014, segundo o diretor técnico, o município precisou buscar água no Rio Uru, em Itaberaí por mais de três meses em quatro carretas diárias. Ele explica que na cidade, muitas casas chegaram a ficar seis dias sem abastecimento e que, em algumas delas, não existe, sequer, caixa d’água. “Esta pode ser uma opção para o futuro, mas fazer um levantamento sobre qualidade da água, vasão e investimento financeiro necessário”, afirma.

Nos últimos 30 anos, a média anual de chuva em Goiás ficou entre 1200 e 1600 mm/ano. Esta média não se alterou muito em 2016. O que mudou foi que o período de seca está maior em quase 30 dias. Laerte Guimarães, consultor de Meio Ambiente explica que a cidade precisava de uma “área de recarga”. “Para reservar água é preciso um solo espesso, rochas permeáveis, que é o oposto da situação vilaboense. A gente precisava de uma área de recarga. O problema em Goiás é de vulnerabilidade natural e falta de planejamento”, finaliza.

Como outra opção estratégica, o geólogo afirma que, ao longo do Rio Vermelho poderiam ser feitos pequenos reservatórios, como se fossem piscinões. Apesar disso, ressalta que para esta opção também seriam necessários estudos sobre quais são os principais pontos do Rio que se adaptariam a essa ação.