Imersão e emoção na abertura do Fica 2016

Déborah Gouthier

A abertura do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2016) inovou trazendo, pela primeira vez nos dezoito anos do festival, a exibição de um filme: o documentário Rio de Lama, do diretor Tadeu Jungle. Além das solenidades que tradicionalmente dão início ao festival, o público pode conferir o curta-metragem produzido em realidade virtual, que transportou toda a plateia para a cidade de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, em Minas Gerais.

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Foto: Flávio Isaac

Em novembro de 2015, o rompimento da barragem da mineradora Samarco devastou a cidade e causou um desastre ambiental, deixando um rastro de destruição e morte. Um mês depois, o diretor Tadeu Jungle registrou a história e as memórias de alguns de seus moradores, que tiveram suas vidas arrastadas pela enxurrada de lama da barragem, que tomou e destruiu Bento Rodrigues. A novidade do registro de Rio de Lama é a técnica de realidade virtual, onde se filma com uma câmera capaz de captar imagens em 360°, e não somente em uma sequência de planos – como é feito, desde sempre, nas produções cinematográficas.

O diretor do documentário estava presente na abertura do Fica 2016 e conduziu a exibição do curta-metragem, aliada a um debate sobre a referida técnica e sobre o filme. Segundo ele, a realidade virtual é uma revolução no audiovisual mundial, pois modifica a forma de contar histórias, permitindo que o público faça parte do filme por meio de uma verdadeira imersão. “A diferença é que eu não comando o olhar do espectador. A revolução está em ser levado para dentro da cena. Imaginem o que isso pode fazer pela educação! Estamos inventando uma nova gramática de narrativa de audiovisual”, afirmou Jungle, entusiasmado.

Foto: Flávio Isaac

Sobre o registro em Mariana, o diretor afirmou que seu objetivo era levar o espectador para pisar na lama de Mariana e, assim, não mais esquecer da tragédia que ocorreu ali. “É um filme ativista, sim, para que as pessoas não se esqueçam, mas também para chamar atenção para que sejam culpabilizados os responsáveis pelo que houve ali”, explicou o diretor. O filme, inclusive, propõe a criação do Memorial de Mariana, para que, por meio de registros de fotos e vídeos produzidos pelos próprios moradores, a história do desastre seja contada e preservada, de forma a alertar para que crimes ambientais desse tipo não ocorram novamente.

Com pouco mais de nove minutos de duração, o curta emocionou a plateia da 18ª edição do Fica e gerou forte impacto. Para contemplar todo o público, a exibição foi feita parcialmente, na tela plana do Cinemão, mas o diretor preveniu que a maneira ideal de assisti-lo seria por meio dos óculos especiais de realidade virtual, que permitem ao espectador escolher aonde olhar nos 360 graus registrados. Mesmo assim, o público sentiu claramente a sensação de estar entre os destroços de Bento Rodrigues e pode conhecer um pouco da dor que carregam essas famílias, devastadas pelos dejetos da barragem.

No filme, o narrador afirma que onde não há esperanças, resta a memória. E o Fica 2016, certamente, começou com o pé direito – deixando uma memória forte e impactante no público, que agora vivencia um festival onde, mais do que nunca, a preocupação com o meio ambiente fica em primeiro plano.

Rio de Lama:
Diretor: Tadeu Jungle
Documentário (2016)
Exibições diárias durante o Fica 2016, por meio dos óculos de realidade virtual
Horário: 09h às 12h e 14h às 17h
Local: Unidade de Ciências Humanas – UFG – Antigo Colégio Sant’Ana