Mercado de animação brasileiro está em busca de mão de obra qualificada

Déborah Gouthier

Os realizadores Alê Abreu, Priscilla Kellen e Luiz Bolognesi participaram, neste domingo, dia 21, do debate O Cinema de animação e o meio ambiente, dentro da programação do Fórum de Cinema do Fica 2016. O trio falou sobre as condições do cinema de animação no Brasil e sua interlocução na temática ambiental, como eles mesmos vêm trazendo em seus trabalhos. E um dos destaques da discussão foi exatamente o crescimento desse mercado, que tem agora um déficit de profissionais preparados dentro do país.

De acordo com eles, o mercado de animação vem crescendo em todo o mundo e, no Brasil, esse processo é fruto de uma construção histórica, de muito trabalho e luta por essa categoria dentro do cinema. Para os realizadores, uma característica marcante da produção nacional é ser autoral. Assim, eles ganham em liberdade, já que têm espaço para crescer e produzir com suas próprias escolhas. “O que tem mais valor pra mim é que os autores têm liberdade de falar o que querem. O que manda não é o algoritmo do lucro”, explicou Bolognesi, alegando que assim, fica mais fácil para falar sobre uma temática como o meio ambiente, por exemplo.

Foto: Mayara Jardim

Foto: Mayara Jardim

Outra característica do mercado nacional de animação é o baixo orçamento – um desafio ainda a ser enfrentado. Por causa disso, os produtores de cinema vêm perdendo mão de obra especializada para o exterior. O mercado brasileiro se profissionalizou e expandiu, mas com a força da moeda estrangeira, acaba perdendo profissionais capacitados. “Com o mercado aquecido, quem tem mais dinheiro tem os melhores profissionais. A animação tem um tempo muito longo de produção, de anos. Então, quando você consegue preparar um profissional da sua equipe, ele recebe uma proposta e vai embora”, contou Alê Abreu, para quem, mesmo assim, o Brasil vive um momento muito bom para a categoria.

Durante o debate, eles contaram sobre suas trajetórias dentro do cinema e como traçaram seus caminhos dentro da animação. Os realizadores também ressaltaram a importância de iniciativas nacionais como o festival Anima Mundi, que, segundo Alê Abreu, foi o catalisador de um movimento pela animação no país. Para o diretor, o festival foi um trampolim para o momento atual que se vive no Brasil, aliado às tecnologias de produção e às leis de incentivo para a categoria.

Além do Anima Mundi, o trio destacou a participação dos filmes em festivais como o Fica. O Menino e o Mundo, por exemplo, foi vencedor no Fica 2014. O diretor Alê Abreu contou que estava em outro festival no país, enquanto Priscilla representava o filme na cidade de Goiás, narrando constantemente para ele o sucesso das exibições e da premiação.

Alê Abreu e Priscilla Kellen são, respectivamente, diretor e coordenadora artística do premiado O Menino e o Mundo, que, além do Fica e de inúmeros outros festivais em todo o mundo, conquistou grande visibilidade com a indicação ao Oscar de 2015. Neste ano, o longa foi exibido na noite de sábado, dia 20, na Mostra Paralela do festival. Já Luiz Bolognesi é o diretor de Uma História de Amor e Fúria, também exibido na Mostra Paralela, na última quarta-feira, dia 17, e vencedor de diversos prêmios mundiais. Ambos os filmes foram vencedores do Festival de Annecy, na França, a maior premiação mundial da categoria de animação. Atualmente, Abreu e Bolognesi estão atuando como parceiros, na produção de Os Imortais, de Bolognesi, e Viajantes do Bosque Encantado, de Abreu. Já Priscilla está à frente de um projeto para TV, intitulado Vivi Viravento, originado em um piloto de Abreu, produzido em 2009, e que agora chega a sua fase final de produção.